MATSUO BASHÔ

O Gosto Solitário do Orvalho, seguido de O Caminho Estreito, Matsuo Bashô, Assírio & Alvim, 2003.Matsuo Bashô (1644-1694), “o eterno vagabundo” – assim lhe chama Jorge Sousa Braga, autor destas versões portuguesas de “O Gosto Solitário do Orvalho”, um volume de haikus, e “O Caminho Estreito”, um diário de viagem.

O Ocidente sempre mostrou muito interesse em tudo que diz respeito ao Oriente. A cultura, os costumes, a forma de ver o mundo, tudo difere bastante do nosso comportamento ocidental.Embora a sua aparência venha se “ocidentalizando” cada vez mais, o Japão
moderno preserva sua tradição milenar tão rica e fascinante causando-nos muitas vezes um “sentimento de estranheza”. Segundo Octavio Paz, esse sentimento de estranheza quando nos deparamos com a cultura japonesa “não provém tanto de nos sentirmos diante de um mundo diferente quanto de nos darmos conta de que estamos diante de um universo auto-suficiente e fechado sobre si mesmo” (1980: 13).

Formado por quatro grandes ilhas – Honshu, Hokkaido, Kyushu e Shikoku – e mais de 6.852 ilhas menores, o Japão é um arquipélago formado por altas montanhas, vulcões ativos, florestas silenciosas e vales profundos situados ao largo da costa leste da Ásia, inteiramente dentro da zona temperada. Sua população, de cerca de 127 milhões de habitantes, onde 75% estão concentrados em centros urbanos, Com uma área maior do que a Alemanha e 23 vezes menor que o Brasil.

Para entender o Japão atual é importante conhecer sua história que é dividida em períodos ou eras. Em cada um deles encontramos características marcantes como a Era Heian (794-1185) quando o povo japonês começa a criar sua própria cultura após ter assimilado durante muito tempo elementos da cultura chinesa, a Era Muromachi (1333-1573) quando ocorre o primeiro contato dos japoneses com os portugueses no auge das grandes navegações, a Era Edo (1603-1868) quando o país vive dois séculos e meio de paz embora se feche em si mesmo, cortando relações com países estrangeiros através do fechamento dos portos, e a Era Meiji (1868-1912) onde há uma “ocidentalização” após a restauração do poder imperial. Nesta era o Japão resolve abrir-se para aprender as técnicas ocidentais, comprando armas, navios, máquinas e implantando um parque industrial. Após a grande derrota na Segunda Guerra Mundial, durante a Era Showa (1926-1989), reergueu sua economia e, atualmente (Era Heisei
iniciada em 1989), é um dos países mais desenvolvidos do mundo.

O poema tradicional japonês, o HAIKU, conhecido no Brasil como HAIKAI. Poema breve de 17 sílabas, o haikai é organizado em três versos, sendo o primeiro composto de cinco sílabas, o segundo de sete e o terceiro de cinco. Não há título, nem seus versos possuem rima. Sua forma é bastante simples. Essa simplicidade, característica marcante da poesia, da arte e da vida japonesa de uma forma geral, não significa pobreza, mas é sinónimo de serenidade, tranquilidade e despojamento.Os conceitos estéticos de pobreza e solidão estão presentes na poesia de Bashô.

Nós do ocidente somos acostumados a descrever, com riqueza de detalhes, tudo o que sentimos, vemos e pensamos. Temos grande necessidade de explicar, definir, exemplificar, esmiuçar.

Mas como compreender uma poesia rica de detalhes e imagens, em apenas três versos e dezassete sílabas poéticas?

Considerado até hoje um dos maiores poetas da história do Japão, Matsuo Bashô (1644-1694) é quem teve o mérito de haver resgatado o haikai do momento de estagnação em que se encontrava (Era Edo 1600-1868).

O haikai é conhecido como “poema da rã” de Matsuo Bashô.
Outros poetas do género lhe seguiram: Buson Yosa (séc. XVIII), Shiki Masaoka (séc. XIX), Koi Nagata (séc. XX).O haiku foi absorvido por outras culturas e línguas, tendo ganho popularidade em diversas regiões do mundo durante o século XX, nomeadamente no Brasil, América, Canadá, França, Índia e alguns países dos Balcãs.

Bashô (1644-1694), samurai e monge zen, colocou em prática no haikai tudo aquilo que aprendeu e alimentou a sua alma
durante a vida. Tornou-se o maior poeta de haikai do Japão, transformando essa forma poética em um caminho (DÔ), uma via de acesso a uma experiência. Nos seus primeiros 23 anos de vida, Bashô viveu como um guerreiro samurai.

De acordo com as diversas literaturas, Bashô nasceu em 1644 e morreu em 1694, portanto morreu na plenitude dos seus 50 anos.O primeiro poema de Bashô preservado até hoje foi escrito em 1662, quando tinha 18 anos. Em 1664, já com 20 anos, dois haicais de Bashô e um de Yoshitada apareceram numa antologia de versos publicada em Kyoto.

Em sua juventude Bashô também foi um samurai, quando em 1666, aos 22 anos passou a dedicar-se a escrita da poesia como Matsuo Munefusa. Outra suposta razão para Bashô deixar sua casa tem a ver com seus casos amorosos, contam diversas biografias, porém não parecem ter apoio no que afirmam.

Mais tarde, depois que ele mesmo fundou uma escola e alcançou sucesso em Edo (actual Tóquio), renuncia à vida mundana, tomou o hábito de um monge, e mudou-se para a sua primeira ermida. Antes da sua retirada, planta um basho- banana, oferecido por um dos seus discípulos – que lhe valeu o apelido. Sua vida é, portanto, feita de pobreza, amizades literárias e viagens. Osaka será a última.

Em 1672, aos 29 anos, Bashô foi para Edo, onde publicou uma série de versos. Em 1675 ele compôs versos linkados em sequência com Nishiyama Soin, da escola Danrin e pelos próximos quatro anos ele se dedicou ao trabalhos de hidráulica para se manter. Em 1682 ou 1683, a cabana de Bashô sofreu um incêndio e por outro lado foi o ano em que a mãe de Bashô morreu. Bashô, então foi para a Província de Kai. Sua cabana foi reconstruída em 1683 ou posteriormente, e Bashô voltou para Edo. Nessa época, acredita-se que Bashô tenha iniciado seu estudo zen no Templo Fukagawa.

Com a morte do seu mestre Todo Yoshitada em 1667, Bashô e os outros samurais que deviam vassalagem ao mestre partiram e se dispersaram, virando “ronin”, ou seja, um samurai sem senhor para servir. A partir desse momento o poeta se dedica ao caminho do haikai, o Haikai- dô. Antes de Bashô, o haikai era poesia cômica, epigrama, jogo de palavras.

Bashô é “santidade e sentido, guerreiro de nascença e formação, monge por escolha, poeta por fatalidade” (1980:83). Chega a ser comparado por ele a São Francisco de Assis (1182- 1226) jovem rico que abandonou tudo, andando errante e maltrapilho em afronta e protesto à sociedade burguesa da época, entregando-se a um estilo de vida fundado na pobreza, na simplicidade de vida e amor
total a todas as criaturas.

É comum chamar o mestre também de Matsuo Bashô, nome que está associado especialmente com a celebrada era Genroku (1680-1730), que viu florescer muitas das maiores personalidades artísticas japonesas.”Narrow Road to the Interior” (Oku no Hosomichi) é a sua masterpiece. Trata de uma extensa contagem cronológica da jornada de cinco meses do poeta em 1689 no norte e oeste da velha capital Edo.

Todos concordam, porém, que o mestre viveu sempre sozinho na cabana. Em noites quando não tinha nenhum visitante, sentava-se quieto para escutar o vento através das folhas da bananeira e produzia haicais com base nessa atmosfera, que tornava-se mais profunda em noites chuvosas. Em um desses momentos, a água da chuva escapando através do telhado gotejava intermitentemente em uma bacia. Aos ouvidos do poeta que sentado no quarto não ofuscante iluminado, aquele som produzia uma harmonia estranha com o barulho das folhas da bananeira lá fora.

a bananeira no vendaval do outono
escuto o gotejo da chuva
numa bacia na noite.

Depois de ditar um haïkuà final os seus discípulos choram,  para de comer incenso queimado, dita o seu testamento, pede aos seus alunos a escreverem para ele, e que o deixem sozinho. Morreu a 28 de novembro de 1694. No seu túmulo é plantado basho.

Extingue-se o dia mas não o canto da cotovia
Matsuo Bashô

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