MARINA ABRAMOVIC

MARINA ABRAMOVICNatural de Belgrado, Jugoslávia, Marina Abramović, desde o início da sua carreira nos anos 70, quando estudou na Academia de Belas Artes, que tem sido a pioneira no uso da performance como forma de arte visual. O corpo sempre foi o seu tema e meio. Explora os seus limites físicos e mentais, ela suportou a dor, a exaustão e o perigo, na busca da transformação emocional e espiritual, com performances, som, fotografia, vídeo, escultura. O seu trabalho figura em numerosas coleções públicas e privadas, além de contar com participações nas mais importantes mostras de arte internacionais.

Marina Abramović. A morte à maneira dela. Já caminhou pela Muralha da China para se despedir de um grande amor, e passou mais de 700 horas sentada numa cadeira a olhar para estranhos. A última obra de Marina Abramović foi preparar a sua própria morte.

Poucas serão as pessoas que podem, no final da sua vida, gritar alto e bom som “I did it my way” como Marina Abramović. De tal forma está ciente da liberdade que sempre pautou a sua vida, que será essa a banda sonora do seu funeral. Sim, porque a artista plástica de 68 anos já definiu qual será o seu derradeiro trabalho, e será a encenação da sua morte.

Marina quer três corpos – o seu e dois falsos – sepultados nas cidades onde viveu mais tempo: Belgrado, Amsterdão e Nova Iorque. “Ninguém saberá onde está o verdadeiro.” Mais, todos os presentes no último adeus à artista devem vestir roupa colorida – ao contrário do que Marina fez toda a vida – e caberá ao cantor Antony Hegarty, líder dos Antony and the Johnsons, cantar o tema imortalizado por Frank Sinatra “I did it my way”.

O guião para o seu funeral começou a ser delineado após a morte da escritora e amiga Susan Sontag, em 2004. “Foi o funeral mais triste a que alguma vez fui e ela era um dos mais incríveis seres humanos que alguma vez conheci. A Susan era cheia de vida, curiosa e uma escritora maravilhosa.” Foram mais de dez anos a pensar neste assunto para, no mês passado, anunciar as suas intenções durante a sua residência artística no Kaldor Public Art Project, em Sydney. “Um artista deve morrer em consciência e sem medo e o funeral é a sua última peça antes de partir”, disse. Como herança, a artista também já sabe o que deixará: o Marina Abramović Institute, em Nova Iorque, que incluirá no seu espólio um banco de sangue com amostras de 250 dos mais inspiradores artistas, cientistas e pensadores do mundo.

UM AMOR DE DÉCADAS
Em 1988, Marina e o companheiro com quem partilhava a vida há já 12 anos, Ulay, resolveram terminar a relação. Mas fizeram-no como artistas, na performance a que deram o nome “The Lovers”. Cada um numa ponta da Grande Muralha da China, caminharam até se encontrarem, a meio. Nessa altura selaram a separação com um último abraço e partiram em sentidos opostos. “Aquela caminhada tornou-se um drama pessoal. Cada um de nós andou 2500 quilómetros, encontrámo-nos a meio e despedimo-nos. Precisávamos desse encerramento.”

Durante os anos que se seguiram não se viram. Até 2010. Nesse ano Marina apresentou a sua primeira grande retrospectiva em território norte-americano, no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, na qual se incluía uma performance intitulada “The Artist is Present”. Durante 716 horas, Marina esteve sentada numa cadeira, com uma mesa e outra cadeira à sua frente. Ao longo de três meses, a mostra foi vista por mais de 750 mil pessoas e mais de mil estranhos sentaram-se por instantes em silêncio na cadeira em frente a Marina.

Um deles, porém, não era um estranho, mas sim Ulay. Quando os dois amantes-artistas se reencontraram ali, rodeados por outras pessoas que os observaram, foi como se nada mais existisse. As lágrimas correram pelo rosto de Marina, que se debruçou sobre a mesa para agarrar as mãos de Ulay, apenas para, pouco depois, as soltar e voltar ao seu lugar. Sim, realmente Marina fez sempre tudo à sua maneira.

EM CASA ANTES DAS 10H
Natural da Sérvia, Marina cresceu com uma educação “militar”, sobretudo após o pai ter saído de casa. “Não me foi permitido sair de casa depois das 10h da noite até chegar aos 29 anos. Todas as performances que fiz na Jugoslávia aconteceram antes das 10h por causa disso. É de loucos. Já me cortava, chicoteava, queimava-me…

Mas sempre antes das 10h.” Talvez estes limites tenham de alguma forma definido a vontade de Marina de testar os limites. Formada pela Academia de Belas-Artes Belgrado, Marina esteve sempre na primeira linha dos estudos acerca da relação entre artista e público, performer e plateia, corpo e mente.

Logo num dos seus primeiros trabalhos, numa exposição em Belgrado, corria o ano de 1974, exibiu 72 objectos e desafiou todos os visitantes a que os explorassem à vontade.Entre os objectos encontravam-se rosas, azeite, uma écharpe de penas… Mas também uma pistola com balas. Marina esteve na galeria durante seis horas. “Estava preparada para morrer, mas tive sorte.”

A “avó da arte performativa”, como é apelidada, fez das artes a sua batalha. É a própria, aliás, que se intitula de “guerreira da arte”. Por um lado, diz, é uma mulher “frágil que gosta de comer gelados”. Por outro, é a mulher que, quando chega o trabalho – e o seu foi sempre a arte – “passa a ser uma questão de vida ou de morte”. E a morte, essa, será à maneira de Marina. Como a vida, de resto.

Raquel Carrilho

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