FRANK ZAPPA+D. BOWIE+ADRIAN BELEW

Zappa+BelewO guitarrista, cantor, compositor e multi-instrumentista Adrian Belew foi descoberto por Frank Zappa em 1976, quando tocava numa banda de covers num bar em Nashville.

Belew tem tido uma bela carreira: começou com Zappa, ficando com ele de 1977 a 1978, depois juntou-se a David Bowie, posteriormente aos Talking Head e, com dois dos elementos desta banda, formou os Tom Tom Club.

Também é – desde 1981 até hoje – um elemento importante de uma excelente banda, os King Crimson.

Belew tem um blogue – Elephant Blog – que é um deleite para fãs de Zappa e de música em geral, muito por causa de pequenas histórias – chama-lhes anecdotes – que vai partilhando dos encontros e desencontros com grandes nomes do rock, de Mick Jagger a Jimmy Page, e às vicissitudes de uma vida em turné. E como o próprio Zappa já explicara em 200 Motels e não só, «tour can make you crazy».

Uma das histórias mais divertidas que partilhou relaciona-se com o recrutamento de Belew feito por David Bowie em Berlim, a 15 de fevereiro de 1978, à revelia de Zappa – ou assim julgou. Na noite anterior, em Bona, Brian Eno assistira ao primeiro dos concertos de Zappa na então República Federal Alemã; sabendo que o seu compincha Bowie andava à procura de um guitarrista, recomendou Adrian Belew.

Bowie foi assistir ao segundo concerto e, na companhia de Iggy Pop, dirigiu-se aos bastidores. Adrian Belew estava lá, como normalmente fazia quando o mestre, completamente concentrado, fazia um solo mais extenso de guitarra.

Após os cumprimentos e mútuos elogios, Bowie convidou-o a juntar-se à banda.

«Bem, eu estou a tocar com este tipo agora…» – respondeu Belew, apontando para Zappa.

«Sim, eu sei», continuou Bowie, «mas a vossa turné acaba daqui a duas semanas e a minha só começa duas semanas mais tarde».

Combinaram encontrar-se no hotel depois do concerto, mas Belew recorda o que viveu como se tivesse sido um personagem relutante num filme de espiões: Bowie e o assistente trataram do assunto com o maior secretismo, aos sussurros, nada entusiasmados pela eventualidade de Zappa vir a descobrir que andavam a recrutar-lhe um músico sob as suas barbas – bigode, neste caso.

Bowie mandou um carro esperar Belew à porta do hotel. Dali seguiram para um dos restaurantes berlinenses preferidos do cantor, com a intenção de discutir, em segredo, o futuro do guitarrista na banda.

Mas o destino às vezes prega-nos partidas – uma espécie de Cosmic Debris desabando sobre as cabeças dos «espiões»: quando entraram no restaurante, viram que Frank Zappa e alguns elementos da banda já se encontravam lá a jantar.

«Podem imaginar? Quantos restaurantes há em Berlim?», recorda Belew no blogue, ainda incrédulo após todos estes anos.

Bowie em Cannes, 1978

Tinham sido vistos, pelo que não tiveram outro remédio senão sentar-se na mesma mesa. Dez anos antes, as primeiras duas bandas de Bowie – The Buzz e The Riot Squad – tinham tocado e gravado duas canções de Zappa, «It Can’t Happen Here» e «Who Are The Brain Police?»

Em 1978, contudo, o cantor inglês já estava a caminho de se tornar uma super-estrela capaz de cegar toda a gente à sua volta.

De forma desconfortável, Bowie tentou estabelecer um diálogo amigável com o autor de «Be in My Video»:

«Gostei muito do concerto!»

Zappa limitou-se a responder:

«Fuck you, Captain Tom.»

(não só aludindo a uma das canções-charneira de Bowie, «Space Oddity», como aproveitando para despromovê-lo de «major Tom» para «captain».)

Bowie não desarmou e perguntou, conciliador:

«Então, Frank, podemos lidar com isto como adultos, não?»

«Fuck you, Captain Tom.»

«Não, a sério, gostava mesmo de falar contigo»

«Fuck you, Captain Tom.»

Por mais que Bowie tentasse, Zappa respondia sempre da mesma maneira.

Num restaurante da cidade de Berlim dos tempos da Guerra Fria, Zappa erguera um muro impossível de transpor ou derrubar. Finalmente, Bowie desistiu. Na companhia do assistente e de um atrapalhado Belew, abandonou o restaurante. Quando chegaram lá fora, comentou com fleuma britânica: «Bem, aquilo correu realmente bem, não foi?»
Uma conversa de sonho com Frank Zappa

O próprio Belew só falou com Zappa alguns dias depois, quando o apanhou sentado sozinho no autocarro. Sabendo que nos próximos três ou quatro meses Zappa estaria ocupado a editar o filme «Baby Snakes» e não precisaria dele, Belew explicou-lhe que fazia mais sentido entrar em turné com Bowie do que andar a ser pago para não fazer nada.

Zappa levantou-se, apertou-lhe a mão e desejou-lhe boa sorte – conversa encerrada.

Voltariam a falar muitos anos depois, quando Zappa já estava atacado pelo cancro que o mataria – Belew encontrou-o sem a vivacidade de outrora, demasiado velho e cansado para falar normalmente.

Meses antes deste último encontro, em finais de 1992, «um sonho muito vívido» acordara-o às seis da manhã e já não conseguira adormecer.

No sonho eu e o Frank falávamos e ríamos, conversando sobre música e outras coisas. Era como se fossemos amigos, senti-me bem.

Uma vez que não conseguia dormir, saiu do quarto e desceu para a sala, ainda a pensar no sonho que tivera. Num impulso, enviou um fax a Zappa, contando-lhe o sonho e reconhecendo que nunca agradecera devidamente ao homem que o descobrira num bar em Nashville e lhe dera a sua primeira grande oportunidade: «por isso, queria dizer obrigado»

Zappa telefonou-lhe horas depois, durante a tarde. «That was sweet», começou Zappa, na voz gutural de sempre. Sweet, doce, encantador, «foi mesmo essa a palavra que usou», recorda Belew, «uma palavra que não associaríamos a um satírico amargo e radical.»

Tivemos então uma conversa – amigável e descontraída como a do meu sonho. E é assim que prefiro lembrar o Frank.

Marco Santos-Jornalista

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